_ Você leva a garota imunda desse jeito pra rua, pai? O que deu em você?
_ Eu tinha que ir no mercado; não podia deixar ela sozinha em casa. Ela é criança. Crianças se sujam.
_ Imagina o que as pessoas vão dizer... “olha lá a filha da Susan, imunda, andando pela rua... a mãe não cuida da própria filha e o avô... nem liga...”
Gritos; brigas. Eu me angustiava todas as vezes que alguém brigava perto de mim e me apavorava quando eu era o motivo da discussão.
“IMUNDA... IMUNDA ...” Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça desde então e me atormentava durante o sexo; na hora do banho, eu me ensaboava e enxaguava 3 vezes e, em dias de crise, 6.
Hoje é um desses dias. Eu perdi meu melhor amigo e meu namorado ao mesmo tempo, dura e lentamente. O pior de tudo é que os dois eram a mesma pessoa. Não. Ele não morreu, mas a dor, talvez, seria a mesma. Eu tentei. Eu juro. Porém, foi mais forte do que eu. Ele é bom demais pra mim e eu sou complicada demais pra ele. Tenho que seguir em frente.
Você não deve estar entendendo nada, então eu explico:
Há 1 ano atrás, eu estava passando pela melhor fase: minha vida acadêmica estava se reerguendo (minhas notas na faculdade estavam boas? Não. Mas, também não estavam péssimas como agora e no ano anterior), eu estava superando o Caio e entrando num projeto novo e inspirador (daqui a pouco conto os detalhes)... tudo parecia muito bem, eu me sentia livre e disposta a entrar numa nova etapa que eu não sabia ao certo qual seria. Até que Tito manda uma mensagem – ele era meu vizinho e melhor amigo do meu primo desde a adolescência – totalmente diferente das que ele mandava vez ou outra.
Nunca fomos muito próximos, mas também nunca fomos distantes. Era uma mistura de “viva a sua vida” com “mas lembre que estarei sempre aqui se precisar”. Nós tínhamos uma admiração mútua muito grande, só nunca entendi o porquê de ele me admirar já que ele era tão incrível e eu apenas lutava para continuar sendo “a mulher forte e independente” a qual as pessoas diziam que eu era, e eu precisava ser; afinal, não tinha apoio da família pra mais nada.
“Chazinha, cheguei agora de viagem e trouxe uma coisa pra você. Vamos nos encontrar pra tomar um café? Às 15h?”
“Claro! Saudades!”
“Eu também, demais...”
Pela primeira vez, em anos, fiquei nervosa por me encontrar com ele. Senti minhas pernas tremendo enquanto caminhava em sua direção (Como sempre pontual, estava me esperando desde às 14h45) e meu estômago parecia que ia explodir. Para completar, a música da cafeteria era “o coração dispara; tropeça, quase para”...
“O que é isso? É apenas o Tito. O mesmo Tito de sempre, amigo do Doug, seu amigo também -mais ou menos- e até conselheiro em alguns momentos... nada mais que isso. Mas, o que ele quis dizer com “demais”? (No mesmo momento, veio a imagem da minha mãe falando pra mim, aos 9 anos de idade: “não confie nos meninos, fique sempre com um pé atrás pois eles sempre querem algo além da amizade com você.”) Isso foi diferente.... não! Isso é coisa da minha cabeça. Chega das paranoias da sua mãe... É só um café.”
_ Chá, você está mais linda ainda. Como isso é possível?
(Continua)

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